quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Santa Moça


Moça, vou te guardar em mim
Tal como o medo que tenho de ti
Tal como a indiferença que por mim tens
Te vi na capa da revista
Batom vermelho
Cabelos longos que envolveram as páginas de minha vida
Pelo menos naquele momento
Boca coração
O vermelho cor de sangue
Fazia as beatas mais do que baterem papo: fofocarem
Mas tu moça, um dia, seria por mim beatificada
Aqueles moços e moças que bateram em tua face
Machucaram ainda mais teu coração
Mas sou tua devota
Santa Moça
Todo ser seria abençoado
Se teu sorriso recebesse
o bê-a-bá da minha vida seria aprender
a fazer caretas
tu me ensinarias
e assim viveria em folia
e os hipócritas, eles que busquem quem verdadeiramente são
que batam nas suas próprias portas
enquanto a batucada
não pára
enquanto nossos corações se expressam através das palavras e através das imagens
A moça que se transpõe em palavras
As palavras que se transpõem em algo
Em quê?



Desenho de ALISSON AFFONSO

“Que seja doce”

Vi um dragão no espelho
Quando me acordei
Olhei
Parei
Medrei
Ele lá estava ao meu lado esquerdo
Queria conversar com o meu coração
Tic
Tac
Tic tac
Acabava de acordar e sentia aquele hálito
De hortelã e de alecrim... que não vinha de mim
Amor
Deus
Dragões
Esperei tanto tempo por eles, já estive tão mais bela
Já estive tão mais preparada para o avesso e o inesperado
Doce
Que seja
doce
Mas ele só me viu mais amarga, mas ele já era tão amargo
E ele recuoou... pegou o elevador e desceu... não olhou pra trás
Invisível
Inviolável
Incompreensível
Me fez o coração disparar, mãos umedecerem, pupilas dilatarem
Não soube aproveitar a espera e quando ele chegou ele nem me olhou

Ele nem me sentiu apenas não sentiu ele que é o ser do avesso
Ele viu a casa arrumada, mas meu ser no espelho se desfolhava
E caía junto com as folhas e flores da primavera
E de tão comum que essa cena era
Que não lhe chamou a atenção
E o dragão não me quis
Os dragões são raros
Dessa vez quero que seja doce...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Nunca durma com a luz acesa

Pessoas menos insanas têm pesadelos na escuridão
As outras vêem ou ouvem ou sentem os outros quando há luz
Quando dormem na luz
Um facho de luz que se mistura com a densidade do que sinto e ouço
Meu ouvido acorda-se úmido ouvindo o meu nome que tal como em um eco
Parece ter sido repetido...
Mas não foi
Era meu nome dito de uma só vez, mas intensamente e tal como um grito
Meio que me acordou
Nem sei se acordei se dormi onde estava
Mas senti e a sensação ninguém me rouba
Era uma voz feminina
Mas quando acordei já tinha a sensação que era uma voz masculina
Pois é
Tomara que tenha sido um anjo
Anjos não tem sexo
Aí tanto faz o tipo de voz que atacou meu ouvido entrou em minha mente e me fez dormir demais.

E ainda não escrevi...
E o alarme me acordou agora de verdade...

Mais uma vez sonhamos sobre a mesma pessoa na mesma noite

...

sábado, 21 de agosto de 2010

O desejo que ataca o medo

Julia decide viver
Casmurro decide viver
E há uma parte dela que nele vive
E por isso agora ele é feliz,
Pois o que dentro dele há é a chamada felicidade
Que para eles é a paixão amor

Fugir
Pegar um metrô
Olhar a paisagem
Comer um sanduíche
Dançar
Beber o que antes era tão simples e fora do alcance
Dormir
Acordar
E
Ver o nascer do sol

Tudo começou quando eu cheguei
Louca e quase morta naquele hospital
Eu havia tentado suicídio
Eu fui testada e minha fé
Consciência da vida
Foi o que me fez viver
E correr atrás de ti
Vivendo cada momento como um milagre

Eu escutei uma vez alguém que eu amava gritar:
“Eu não quero morrer”
Mas eu nada pude fazer
Já tinha visto os olhos – o olhar – esmorecer
A luz havia sumido
E eu não consegui dizer o que eu queria

Casmurro:

Se te dissessem agora que terias semanas, dias sem prazo para viver...
O que farias?

....

Som de piano

....

“In order to lose someone you must first experience authentic attachment”

domingo, 15 de agosto de 2010

Que se danem os tons pastéis

...

O POÇO

Eu me enlouqueci demais
Precisei
E
Quis
Ir até o fundo
O fundo do poço que comigo gritou
O fundo do poço que me fez chorar
Espernear
Caminhar cega pelas ruas
Olhando pra cima
E vendo apenas o céu escuro
Nenhum Deus
Nem mesmo os anjos me vieram ao encontro
Deviam estar envergonhados
Deviam estar abismados
Com o eu monstro que havia nascido e crescido em mim
Na verdade já tinha nascido há tempos
Só estava aqui guardado
Hibernando
Mas agora eu mandei, ordenei esse eu monstro
a ir pra cama
cantei uma canção de ninar para assim vê-lo sorrir
ele sorriu sem graça
aquele sorriso sabes?
Que os lábios se puxam para um canto da boca
Boca minha que continua vermelha
Pois um dos meus eus ainda tem o Diabo no coração
Mas – ainda bem - há um anjo bom ao lado de minha alma.

NÓS SOMOS DEUSES

Nós somos deuses
Temos poderes íntimos
Que nos intimam
Cada vez que a tragédia
Por mais cômica que seja
Nos bata a porta.
Te coloco numa ilha deserta
Tal como um boneco
Te jogo em meio aos leões
Duas situações em que farias o quê?
Lutarias
Lutarias
E encontrarias a ti mesmo
Só tu podes ajudar-te
Eu só te empurro
Eu sou apenas a esperança
E tu vais amadurecendo
Quantas vezes nesse nosso tempo concreto
tu páras?
Pois é
Não te conheces
Por isso amedronta-te
E reages com raiva
Cada vez que com a minha calma
Resolvo os problemas que não são meus
Pois acho
Apenas acho
Que agora conheço-me
Quero agora conhecer-te
Pra descobrir que estou errada
E que de mim mais ou menos sei
....